Lusofonia & Mundo: Cahora Bassa, GIGANTE no ZAMBEZE
 




TEXTO DE PAULA CASTELO BRANCO
FOTOS DE JOÃO VAZ DE ALMADA


O MAIOR ABASTECEDOR DE ENERGIA HIDROELÉCTRICA DE ÁFRICA

Construída pelos portugueses entre 1969 e 1974 sobre o rio Zambeze, Cahora Bassa é a quinta maior barragem do mundo com uma capacidade de produção de dois mil e 75 megawatts de electricidade, o que faz dela o maior abastecedor de energia hidroeléctrica de África. Para se compreender como cresceu este grande projecto de uma obra que chegou a ser apelidada de “a obra do século” é preciso recuar um pouco no tempo.

Embora a ideia de construir uma barragem no vale do Zambeze só tivesse surgido na década de 60, tanto aquele rio como toda a sua área de influência eram desde há muito conhecidos pelos portugueses. As suas riquezas escondidas e potencialidades não tinham passado despercebidas e, ainda na década de 50 do século passado, em pleno período do pós-guerra, a bacia hidrográfica do Zambeze começou a ser vista como uma zona que poderia vir a possibilitar o desenvolvimento económico da região. Surgiu assim a ideia da construção de uma infra-estrutura que fosse capaz de sustentar o desenvolvimento económico da área. Após vários estudos, ideias e propostas económicas, não isentas de contrariedades, acabou por surgir o projecto daquilo que viria a ser mais tarde a maior hidroeléctrica de África.
O Estado português incrementou então o estudo daquela vasta zona, considerando todas as possibilidades de auto-sustentabilidade económica. Foi criada em 1957 – visto tratar- -se de uma zona extensíssima a considerar – a Missão de Fomento e Povoamento do Zambeze (MFPZ) com o objectivo de proceder ao reconhecimento dos recursos hidrográficos da bacia do Zambeze. A elaboração dos estudos que conduzissem ao plano de desenvolvimento da área em questão, em colaboração com aquela entidade pública, ficaram a cargo da Hidrotécnica Portuguesa (HP).

Plano Geral

Em 1958 a Hidrotécnica Portuguesa apresentou um relatório preliminar onde se condensavam os estudos efectuados pelos vários grupos de trabalho da MFPZ.
Foi dado a conhecer o esquema geral que reunia a totalidade dos estudos realizados e que, a ser aprovado, serviria de base a um Plano Geral para a construção da barragem, divulgado em 1965.
O Plano continha o projecto inicial das obras escolhidas, bem como o planeamento dos empreendimentos considerados vitais para o início do que se pensava vir a ser o desenvolvimento de toda aquela região. Feito o estudo, tornava-se necessário analisar a viabilidade política e económica dos projectos propostos.
A partir dos anos 60 do séc. anterior, o Governo Português, pressionado pela comunidade internacional, atenta aos acontecimentos em África, aumenta o esforço de criação de infra-estruturas e projectos de desenvolvimento. A ideia era possibilitar a rápida recuperação da situação de atraso económico, dando atenção especial aos casos de Angola e Moçambique. Foi neste âmbito que se assistiu, durante esta época da década de 60, ao início de vários projectos e obras, entre as quais se conta o empreendimento de Cahora Bassa.
A Hidroeléctrica de Cahora Bassa SARL, (HCB), como empresa, nasceu num período conturbado da história dos dois países que dela são accionistas, Portugal e Moçambique. De facto, quando foi criada em meados de 1975, enquanto Portugal dava os primeiros passos na democracia, Moçambique vivia o momento em que se preparava para uma independência com um início bastante conturbado. O seu objectivo era, e continua a ser, o de gerir uma barragem construída no Zambeze que fornecesse energia abundante, fundamentalmente à África do Sul, através da ESKOM – sociedade sul-africana de produção e distribuição de electricidade –, mas também a Moçambique.

Embora existam notícias de algumas expedições ao Zambeze, só no séc. XIX elas se tornam mais comuns. De entre as várias expedições contam-se a de Livingstone, Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo ou Roberto Ivens, todas elas viagens de exploração que, aos poucos, vão dando a conhecer ao mundo Ocidental o interior de África, até então quase totalmente desconhecido.
Foi contudo Livingstone quem mais se aproximou do local onde hoje se encontra a parede da barragem de Cahora Bassa. Iniciada em 1855, a sua expedição tinha como objectivo mostrar que o Zambeze poderia servir como eixo de ligação entre o interior africano e o Índico.
Mas só em 1905, o português Gago Coutinho consegue chegar até onde nenhum outro europeu tinha chegado. O termo Cabora Bassa foi então explicado pelo explorador português como significando “acabou o trabalho”. Ou seja, como não era possível aos habitantes da região passar com as suas embarcações a partir daquele ponto, a viagem de subida do rio acabava ali e, portanto, os trabalhos também.
Deve-se, pois, a Gago Coutinho o primeiro estudo científico da região bem como do primeiro desenho do percurso do Zambeze que, por ser diferente do desenhado por Livingstone.

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