GRANDE ENTREVISTA: D. Francisco van Uden, Oficial e Cavalheiro
 




Texto de Inês Teotónio Pereira
Fotos de Joost De Raeymaeker


Para se impor um regime republicano, basta um golpe de estado. Já a instauração da monarquia advém de uma “vaga de fundo”, com grande apoio popular e em paz.

A sua história conta parte da História de Portugal. Tem isso muito presente?

Eu estou muito condicionado pelos antecedentes da minha família, desde a saída do rei D. Manuel II. Desde então até ao meu nascimento passaram três gerações de exílio. Só em 1949 é que a minha mãe pôde finalmente regressar a Portugal, onde eu nasci. Eu fui o primeiro membro da família a nascer em território nacional. Mas como só se passaram três gerações as coisas ainda estão muito próximas.

Mas também a II Guerra determinou a vida da sua família.

A minha mãe viveu em Viena de Áustria, onde tirou o curso de enfermeira e assistente social. Durante a II Guerra Mundial, sempre que havia bombardeamentos, ela deslocava-se à noite até ao local para prestar auxílio às vítimas. Numa dessas noites, quando chegou ao local onde estavam a montar uma tenda da Cruz Vermelha, ofereceu ajuda ao médico que ia começar a operar. Terminada a operação, já ao amanhecer, o médico perguntou-lhe o nome. Ao que ela respondeu: “Maria Adelaide. E o Sr. Doutor como se chama?” “Eu não sou médico, sou estudante de medicina.” E foi assim que os meus pais se conheceram. Corria o ano de 1944. Ele era um estudante holandês, bastante mais novo que a minha mãe. Ainda durante a guerra casaram e tiveram o primeiro filho em 1945, em Berna, na Suíça.

Porque é que saíram de Áustria?

Porque a minha mãe fazia parte de um movimento de resistência Nazi e foi condenada à morte pela Gestapo. Felizmente, por obra do acaso, o professor Oliveira Salazar teve conhecimento e interveio junto dos alemães, invocando que a minha mãe era património nacional. O que é bastante curioso tendo em conta que ela estava proibida de pisar solo português. Esta intervenção da diplomacia portuguesa resultou na libertação e deportação imediata da minha mãe, que deste modo se estabeleceu na Suíça. Era lá que estavam o meu tio Duarte e a minha tia Maria Francisca e onde nasceu o D. Duarte de Bragança. Depois da guerra, os meus pais acabaram por regressar à Áustria.

Como é que se dá o regresso a Portugal?

Nesta altura surge uma situação curiosa na Assembleia Nacional: tinha-se chegado à conclusão de que a maioria dos deputados eram monárquicos. Ora, os monárquicos combinaram entre si aproveitar todas as sessões da Assembleia para falar sobre a questão da Monarquia e do regime antes da ordem do dia. Tanto pressionaram o Professor Salazar que ele se viu na obrigação de pedir ao Professor Marcelo Caetano que explicasse durante o Congresso da Assembleia Nacional, que ocorreu em Coimbra, porque é que não podia haver mudança de regime. Mas Marcelo Caetano não foi suficientemente convincente e Salazar dirigiu-se ao Congresso onde afirmou que a Monarquia não garantia o regime do Estado Novo.

E as pressões simplesmente terminaram?

O que ele queria dizer com isto era simplesmente que a restauração da monarquia, naquele momento, implicaria a criação de uma Monarquia Parlamentar, o que punha em causa o regime. Assim sendo, pôs-se fim a este debate.
Neste contexto, em 1949, a minha mãe regressa a Portugal. Entretanto, o meu pai já era formado em medicina pela Universidade de Viena de Áustria e tinha feito uma especialização em doenças de pele. Mas infelizmente, quando cá chegou não lhe foi dada equivalência, pelo que não podia exercer. Sem outra solução, foi trabalhar para um pequeno laboratório de investigação científica da Faculdade de Ciências. Ali ficou durante vários anos, até surgir a oportunidade de trabalhar em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian. Assim nasceu o Instituto Gulbenkian Ciência, que promoveu a investigação científica em diversas áreas, desde a década de 50 até aos dias de hoje. O meu pai dedicou-se anos a fio à investigação, impulsionando inclusivamente a formação de outros investigadores.

Considera viável a médio prazo o restabelecimento da Monarquia em Portugal?

A verdade é que para se estabelecer um regime republicano basta fazer uma revolução, já a instauração a Monarquia só se dá quando os alicerces do Estado cedem, tanto a nível social, económico e político. Tão cedo não acredito, mas o País está numa situação muito complicada.

Há uns anos surgiu uma polémica sobre a possibilidade de o colocar como pretende à coroa em detrimento de D. Duarte. O que é que se passou?

A única coisa que aconteceu foi que eu pedi ao Conselho de Nobreza que desse um parecer para o caso de D. Duarte não ter filhos. Queria saber se essa responsabilidade passaria em algum momento para mim, visto que ele tinha 50 anos e ainda não tinha descendência. Eu queria saber se deveria educar o meu filho mais velho nesse sentido, já que isso seria uma enorme responsabilidade para a qual eu tinha de estar preparado. Foi apenas isso. Mas hoje, já não faz qualquer sentido.

Como é que foi o regresso a Portugal?

Nós vivíamos na Quinta do Carmo, em Almada. A minha mãe começou logo a trabalhar como assistente social em algumas iniciativas, porque aquela zona da Trafaria, no Monte da Caparica, era muito pobre. Era também uma zona tampão da vinda de alentejanos que migravam para a capital e acabavam por ali ficar. Por tudo isto, a minha mãe desenvolveu um trabalho intenso, sobretudo na zona das barracas, onde recolhia as crianças recém-nascidas ou mesmo as mães prestes a dar à luz, e levava-as para a Fundação D. Nunes Alvares Pereira, da qual era presidente. Estes rapazes e raparigas viviam ali até à puberdade de onde iam para as Oficinas de São José, os Salesianos, até ganharem asas para voar. Eu próprio fiz parte da minha instrução primária na Fundação D. Nuno Alvares Pereira e hoje em dia tenho amigos espalhados por toda essa região.

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